Ela…

Isa 1698Ela preferia se perder em cada música dele que escutava. Em cada respiração que aparecia entre as palavras soltas uma atrás da outra naquele rap. Preferia se perder nos inúmeros significados que a letra de uma música poderia ter, ou que aquela poesia poderia parecer. Preferia, ainda, se perder nas palavras daquele velho livro da estante, o qual já havia gravado a sequência dos acontecimentos, ou mesmo daquele novo, o qual ler era um mistério.

Preferia ver aquele filme pela nona vez, para ver se gravou certo as falas da personagem principal, ou ainda desfrutar todos os aromas dos perfumes e cremes que ocupavam espaço em sua penteadeira. Desfrutar aqueles aromas em sua pele, desfrutar o toque em seu corpo.

Por mais difícil que pareça; sim, ela preferia desfrutar tudo que podia sozinha, do que desfrutar aquele mundo com cinismo em cada olhar, com astúcia em cada palavra; aquele mundo o qual tinha medo que a magoasse.

Ela ama olhar nos olhos das pessoas, é daquelas que se apaixona por olhares brilhantes; ela ama analisar lábios, se apaixona por cada um que lhe encanta, e também ama analisar as palavras que através deles ganham uma pronúncia única; e se elas forem compreensivas, adivinhe?

Ela se apaixona.

Se aquele perfume chegar até ela, penetrar na pele, ou até mesmo ficar no ar, e lhe agradar, ela se encanta. O sentirá em cada canto, procurará por ele em cada um que passa ao seu lado.

Se aquele toque quente, macio, daquela mão chegar em seus dedos, em seu ombro, ela se apaixona.

Ela se apaixona por aquele sorriso que quebra a barreira de sanidade dela, que faz com que ela fique tonta.

Ela se apaixona por aquela postura despojada, em cada andar que observa.

Mas não se preocupe, ela tem uma sanidade feita, somente se apaixona por admiração, por querer aquilo algum dia ao seu alcance, pois por enquanto, ela olha no espelho e não vê a necessidade de cair em cada palavra de amor que lhe são ditas ou em cada lábio que tenta doma-la. “Pois por enquanto”, pensa ela, “só estou na paz da observação”. E ela repete a si mesma, sempre querendo acreditar, que não é, e acima de tudo, não pode ser difícil esse seu novo papel.

Dessa vez se comprometeu consigo mesma, que de secretária de um clube, passou para secretária da sua vida: faz relatórios das suas atividades, assim não depende de ninguém; resumiu seus “associados” em três tipos de relatórios; o de inclusão, – onde consta os novos integrantes de sua vida que se reconstrói aos poucos – o de exclusão – aquele que de certa forma faz com que aqueles que não se dedicaram e tiveram tanta responsabilidade saiam, com ou sem motivo aparente, de sua vida – e o ultimo e o mais importante, o completo, onde constam todos os atingidos por sua simpatia que é aparente e que deixa alguns orgulhosos e outros com dúvidas.

E sabe o interessante dessas dúvidas? Ou melhor, dessas pessoas que as têm?

São todos tão ridículos; julgam sem conhecer, maliciam cada sorriso que ela mostra, cada abraço que ela tenta sufocar as angustias, cada palavra pronunciada sem jeito. Mas não, ela não é esse tipo de pessoa “atirada” a qual todos palpitam.

Ela não quer ser antipática, quer sorrir porque acha que assim tudo vira alegria, quer brilhar porque diz que tudo vira magia, ela quer viver do jeito que a ensinaram. Sempre em frente, sem magoar ninguém; escutando as pessoas, – seu pai sempre lhe dizia que o bom amigo era quem os escutava – sorrindo quando acha que precisa de um sorriso, dando opiniões quando surgia a brecha, e sempre fazendo alguém rir quando as lágrimas começavam a brotar.

Ela pode não ter sido criada assim, mas não sabe de onde veio essa vontade de não magoar ninguém; será que é porque não gostou das magoas sofridas?

Sim, pode ser; ela só quer ser agradável, amável e querida por todos, ser reconhecida pelo que dentro dela, as vezes, transborda em lágrimas.

Ela é só uma menina ainda, uma menina mulher; e isso tudo, todas essas qualidades, não se acha tão fácil.

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