conhecido, desconhecido

Sentei naquele lugar, parecia que todos me observavam, era angustiante – sabe quando você entra nos lugares tediosos e todos se viram, observando cada passo seu?

Cada movimento feito era pensado com tanto cuidado, como se aquilo fosse importante – mas nem ouse em pensar que era algo de fato, importante; eu estava somente em uma prefeitura, de uma cidade não muito grande, revendo minhas palavras para não pedir nada errado ao atendente.

Respirando fundo, ousei olhar para o lado e ver quem me cercava, e lá estava, aqueles olhos castanhos gigantes me observavam, e os quais tão bem, eu conhecia.

Ele parecia hipnotizado, como se não entendesse tremenda coincidência- era preciso estar em outra cidade para se encontrar com ele?

Voltei os olhos ao balcão –  já não acreditava mais em coincidência, só no destino brincando com as vidas; por tédio, mesmo.

Aquela espera nunca foi tanta. Em torno de cinco minutos o painel das senhas foi disparado, e ao conferir, ainda não chegara a minha vez, quem me dera se fosse a dele.

O telefone toca e atendo. Nem meço minhas respostas, só sinto olhos pesados em cima de mim, parecendo desvendar o mistério de quem estaria do outro lado, me respondendo. Assim que desligo, dou uma checada na cadeira onde aqueles olhos anteriormente me fitavam.

Eles continuam ali, me examinando, com um olhar vazio, que mais parece um oceano tentando me engolir.

Quando finalmente me levanto, me distraio repassando tudo que deveria pedir ao atendente.

Até que sinto um peso jogado em cima de mim. Meu corpo estremece e documentos caem ao chão. Sinto um toque conhecido e um calor de uma pele que nunca seria capaz de esquecer. E quando me dou conta, aquele olhar se encontra com o eu, como um pedido de desculpas, com um sorriso amarelo, como se nunca antes, tivéssemos nos tocado, ele parte me deixando apenas a sensação de a deriva e os documentos.

Como é possível, conhecer tao bem alguém, e a ver como uma estranha, num mundo cheio delas?

 

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